3.11.09

L´Innocente; Luchino Visconti, 1976


Sina
As mulheres dos sonhos são sempre esquecidas pela vida da manhã seguinte.


Sina
Violeta, Amália e Julieta eram três meninas aparentemente felizes.


Sina
Ele lía as mãos dela e escolhia apontando o futuro num papel.


Luminosidade
A mulher de cabelo verde e barriga de oito meses tinha o homem de cabelo roxo e rosa na mão à sua espera.


28.10.09

Da pobreza
Ele queria ter dinheiro para terem Paris, quando podiam ter Lisboa mesmo sem dinheiro nenhum.






esta ideia de amor, como explicara em dois minutos a olhar para uma reprodução com cores ligeiramente destorcidas, do convite que era mais alegre e brilhante, era muito bonita. A guardar o coração, ou a apertá-lo para dentro, a empurrá-lo, como se doesse. Podia-se pensar num amor incompreendido, ou impossível, olhando rapidamente. E depois ela decide dizer o quanto importante era aquele desenho e não o outro, que estava em lugar de destaque. Era aquele, onde não só a dor é amor, é tão simples. Veja, a minha filha veste as minhas roupas de casamento, não é engraçado? Guardar o coração que guarda uma memória feliz. Onde tudo foi feito. Sim, sim, depois vem o abandono, a tristeza, a morte, a solidão. Mas fica aqui marcado, num lugar profundo entre o peito, as mãos e as deles, essa terrível boa nova, que é o amor.




26.10.09








Leitura* de fim de tarde

MEFISTÓFELES (só)
Um doido amante
daquela força, iria, se pudesse,
às estrelas, à lua, ao sol pôr lume,
só para regalar a sua amada
de ver nos céus um fogo d’artifício,
em que tudo estoirando esfuzilasse.


* Goethe;
Fausto, Quadro X, Cena II


25.10.09

Vénus II
Ela não sabia separar a alma do corpo.
Se me despir fico com o meu coração a nú, pensou sem necessidade de completar alguma coisa. As emoções chegavam mais tarde, na manhã seguinte, dois dias depois, porque nunca as entendia no momento. Só se completa - as emoções- olhando para o passado, quando a alma, que desempenha esse papel mediador entre ideias e matéria, entra, por fim, em dilatação, ou em estado de graça. E nem sempre é certo que aconteça. Diz-se que pensar e sentir são a mesma coisa para a mulher. Mas o que acontece é que são simultâneos, clarificados por uma espécie de vertigem da realidade, póstuma ao acontecimento.* Quando ele achava-a apaixonada, perdida em traduções de mau escritor, já ela enfrentara, sem dramas, o mundo. E perdia, com a alma e com o corpo, o direito à inocência.



* Agustina Bessa- Luís.


23.10.09

Vénus
Não sabia separar a alma do corpo. Se me despir, fico com o meu coração a nú :
A mulher tem fome e quer comer; sede, e quer beber.
Está com o cio e quer ser fornicada.
O grande mérito!
A mulher é natural, isto é, abominável.*


* C. Baudelaire;
Mon Coeur Mis à Nu.



Olá,
sim, divirto-me a falar de mim.
Divertindo-me ganho esse direito.


21.10.09

ONE DAY YOU WILL NO LONGER BE LOVED II **
Quando a ideia de sacrifício, que é a de quando o momento de maior perigo coincide com aquele em que se é salvo*, deixar de existir.


** Título de uma obra de Jake & Dinos Chapman
* Rainer Maria Rilke; Da Natureza, Da Arte e Da Linguagem.



Ainda estava escuro quando saí do quarto que alugara num bairro ao lado de uma enorme estação de comboios em Delhi. Meio a medo, andei em passo largo até entrar na estação. Lá dentro, fui obrigada a parar. Centenas de corpos embrulhados em panos dormiam no chão. Saltei-os. E seis horas depois estava noutra estação. Andei pela cidade e perdi-me. Uma criança pequena agarrou-me na mão e puxou-me, aflita, chorosa, até a um descampado cortado por uma vedação em arame farpado que ultrapassava-me em altura. Quando ví a outra criança, presa e ainda desmaiada, não imaginaria a tensão violenta e desmedida que ía sentir minutos depois. E a repercussão, longe das coisas reais. Que pensamos ser incapazes de suportar. Esse oscilar indescritivelmente real na esfera espiritual. Mesmo alí, nas minhas mãos.


Do terrível ao terno
Quando todos se enchem de comprimidos, novelas, filhos, para ocupar o tempo e tornar a vida possível, eles procuram uma fenda. O que se esquece, eles lembram. O que se tenta esquecer para viver, eles acordam. É sacudindo e remexendo que tentam desvendar -cada um por si, não se enganem- os monstros, sim os monstros, que são nossos, quer dizer, de cada um. E são ferozes. Trazem uma força dura, terrível, a única capaz de nos fazer superar a nós mesmos. "A não ser que se dê ao acto da vitória um sentido misterioso e muito mais profundo, não cabe a nós considerarmo-nos os domadores (...) de repente, percebemo-nos marchando ao lado deles como num triunfo, sem conseguir lembrar o instante em que se realizava essa inconcebível reconciliação." *


* Rainer Maria Rilke;
Da Natureza, Da Arte e Da Linguagem.



14.10.09

O canto do Galo
Acho que me perdi
mais ou menos, por alí.



Das coisas sérias
tão sérias que não podem ser ditas. Nem pensadas. Nem sonhadas. (cruz credo)
Mas podem ser, seriamente, confessadas.
Confesso a Deus, Pai Todo Poderoso Se..
- shhh, olha que isso é pecado.
- ...
- não te podes confessar aqui.



16.9.09

Prepara-se a fuga
a fuga
ai ai
aos bocadinhos, quando estão todos a dormir.

os gatos são proibidos


28.7.09

Exílio
Decidindo renunciar ao estado de amor, o sujeito vê-se com tristeza exilado do seu Imaginário.*
E quando vou de livro na mão, o meu imaginário dá cabo de mim. Encontrar-te no mar morto é quebrar o luto da imagem. É uma merda.


*
Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso, pág. 145.


Precipitações
Ele tinha 26 anos, umas namoradas, e disse-lhe que ía fazer um teste porque andava perturbado.
- Qual teste?
- Um espermograma.
Ele tinha 30 anos, uma namorada, e disse-lhe que não pensava em filhos.
- Porque?
- Sou novo.
Ele tinha 38 anos, procurava namorada, e disse-lhe que andava a escrever um livro.
-Sobre o que?
-O relógio biológico masculino.
Ele tinha 47 anos, era casado, e disse-lhe que queria um filho.
-E depois?
-Depois já não preciso de ti.


22.7.09

*
A senha automática dá-nos direito a um ecrã que informa quanto tempo falta até sermos atendidos. A senha diz-nos quantos números temos à frente e a que horas carregámos no botão . Também faz um tlim plim calculado, esse ecrã, só para informar que mais um já andou. Existem três tipos de senhas e as filas certinhas acabaram. Hoje, na estação dos correios que ainda não conhecia, perto da casa nova, lembrei-me do tempo que passei no magnífico edifício dos correios de Calcutá.* Uma boa hora, mas não na fila, nem à espera.
Quando havia tempo e espaço para espaços destes. (creio que teus). E espaços desses também em mim.


Da velocidade
Ele escolheu-a, entre outras, num imenso catálogo de mulheres.
Ela, sempre aborrecida com o tempo, foi para o salão com uma vela na mão, incerta do que estaria a fazer. A dança era sincronizada, mulheres de um lado, homens do outro. Dançou com um par que nunca se enganava. A trocar os pés, a dar a mão, a bater palmas duas vezes antes de mudar de lado. Pediu-lhe para parar, estava a ficar tonta. Saíu e pensou que nunca mais lá punha os pés. Continuava aborrecida.
No caminho de gravilha, já no fim do jardim, ele decidiu-se e resolveu se apresentar.
Estavam, a partir de agora, dispostos a perder o resto de ilusão que ainda tinham.


*
Chegámos num barco de madeira com um motor potente na popa. Embora a visível potência do motor não se igualasse à resistência das tábuas compridas pintadas de azul, o rapaz pescador parecia controlar a disparidade. O barco cortava as ondas altas e o céu estava encoberto. A chegada é complicada, quem não se agarra firme, cai. Com os solavancos.
A ilha deserta. A ilha, deserta. E nós, instintamente directas para o mar, caladas, distantes, vencendo as ondas altas e intermitentes.
Afastámo-nos em forma de triângulo, uma em cada vértice. Choveu muito e estávamos nuas também. Foi um dia libertador.


*Andaman Sea, 2008


14.7.09

Penser la vitesse mon amour
Paul Virilio em Penser la vitesse pareceu-me um louco. Já o tinha lido mas nunca o tinha visto. Pareceu-me um louco daqueles que esfregam as mãos e fazem um sorriso tão inocente como maldoso, sincero e contraditório mistério, de olhos bem abertos sem pestanejar, imaginei. Estava vento e frio. Ví o documentário pensando que se soubesse que era um documentário teria visto em casa, que não eram horas de ver documentários. Nem sítio. Da outra vez assisti Hiroshima mon amour. Lembrei-me do filme enquanto se falava da velocidade. E dos cataclismos dos dois. Que é o nosso fim, o fim que Virilio não sabe se há de temer ou desejar. Depois de "la lumière! la lumière!" Goethe na hora da morte é genial: sentir uma imensa curiosidade. Unne immense curiosité! Unne immense curiosité!! que é esperança absoluta. É Amor, diz Virilio com os olhos esbugalhados a brilhar. É temer e desejar.


*
Saíram os dois a ganhar. Um vencedor e um vencido.


* Niagara, 2008

Hotel Glória
Da Senador Vergueiro à Rua do Russel demorávamos pouco. O edifício era branco e muito grande, vigoroso e cheio de janelas. No aterro em frente, depois do muro de árvores, aprendi a andar de bicicleta. Nesse hotel, aprendi a nadar.
A minha mãe levava-me e ficava sentada a assistir. Havia mais miúdos e mais mães. A piscina era um lago enorme que crescia em forma de curva e contracurva. Como as mulheres. Como se sabe no Rio. Tinha silhueta mole e sedutora, o azul variava entre quase branco e escuro profundo.
Um dia chegou o dia de atravessar o que parecia ser a parte mais perigosa e assustadora da piscina. Atravessar aquele lado era ser-se grande. Oh! É a minha vez. Atiro-me com os dois braços esticados para a frente a segurar na minha prancha rectangular forrada com um tecido às riscas amarelas e azuis, com o meu nome pintado ao lado de um pato que devia ser o Donald. Atiro-me. Bato os pés e já vou a meio caminho. Tenho que parar. Agarrada à prancha não ía ao fundo, mas se continuasse a bater os pés não ía conseguir ver bem a dimensão debaixo de mim. Por onde passava. Resolvi parar. E não era medo, já não era medo nenhum, era só curiosidade. Vieram-me buscar.


3.7.09

Inventamo-nos assim
A dona Conceição deixava-nos sair sozinhas. Os Plátanos existiam dos dois lados da rua e as grandes copas fechavam-se numa só, fazendo da rua de um só sentido um túnel muito comprido. Era o nosso caminho. Chegado ao portão, acontecia, por vezes raras, estar fechado. Tocávamos o sino e lá vinha a Fina muito ocupada, sempre ocupada, de cara rosada e cabelo escorrido preto, abrir. Mal a víamos, tal a rapidez. Entrávamos pela cozinha. Também me lembro da Lili. Aparecia nas escadas atrás da chaminé dos fogões, era pequena e um pouco corcunda, uma guardiã com a idade da casa. Tinha as mãos grossas e um carrapito no cimo da cabeça cinzenta. Não me lembro de ouvi-la. Via-a sempre a esgueirar-se.
Há coisas que estão sempre dentro de nós. E estas memórias são minhas porque tuas. Ando a aprender quem sou. Faltava agradecer-te.


* e já agora a correcção, obrigada também. Dona Fernanda, pois claro.


De Camus a René Char*, onde ficou o meu francês

*Dans les rues de la ville il y a mon amour.
Peu importe où il va dans le temps divisé.
Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler.
Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima?


Encontrado e sem permissão*

Almas
Des almado
o corpo que lhe sobra
folheia o corpo dela
na insónia


* n´A Natureza do Mal, Junho 2003


29.6.09

*
O Princípio da Incerteza
Até ao fim, a personagem central -a Jóia de Família- não tem vontade em se afirmar.
Isso é uma preocupação de quem é novo, é uma preocupação minha, isso de querer me afirmar, e sublinhar teorias e verdades. "As habilidades que as mulheres fazem para saltar por cima do sofrimento são extraordinárias" Manoel cita literalmente Agustina. E faz com que a incerteza se entranhe, lentamente, em cada plano. As verdades não nos levam a parte nenhuma. Não têm ilusão.


*arredores de Hampi, Karnataka, 2008

28.6.09

Boa
Nem boazinha, nem boazona.

Belle de Jour
O conflito guarda-se numa caixa escondida atrás de uma campanhia. Pode-se tocar e fugir, pode-se tocar e entrar, pode-se nunca passar perto, mas não se pode negar.
Um dia ela acaba por tocar sozinha.

Belle Toujour
Na idade adulta existem traições, mentiras, desilusões. Na idade adulta existem obsessões. Na idade adulta existem precipitações. E barmans que nos ouvem.

26.6.09

Violência doméstica
Eu
Tu
Ele
Nós
Vós
Ela


Das mudanças
Descobri um vestido da minha mãe. Ela usava-o mesmo antes de engravidar, era vaidosa com as coisas dadas pelo meu pai. O vestido é encarnado com um padrão creme que finge ser aleatório em forma de manchas, umas pequenas, outras grandes, e tracinhos todos juntos. A saia não é muito rodada, tem três pinças na parte da frente, e em cima é como se fosse uma blusa, com botões forrados com o mesmo tecido, que é fresco e não amarrota. Ela deu-mo e agora estou a usá-lo. Vesti-o ontem à tarde pela primeira vez e hoje estou a repetir. Ando descalça, de vestido. Tenho a sensação de que a memória me apazigua. E quando, em Maio, em plena Fnac comecei a perder estupidamente sangue, dei conta que era dia da mãe. Fui a correr para a casa-de-banho e pensei que não aguentaria perder um filho. Um animal capaz de morrer pela cria. Mas não estava grávida. Foi a coincidência de um anticoagulante (um remédio para as dores de cabeça que me trouxeram do Brasil e que entretanto descobri que foi proibido por cá) no mesmo dia em que apareceu o período. Mas era dia da mãe, e eu, não sei porque, senti que tinha que salvá-lo.


24.6.09

Das mudanças
Ela tinha cabelo comprido, tu querias cortá-lo.
Ela era alta, tu querias um degrau a menos.
Ela usava calças, tu preferias saias.
Tu gostavas dela, mas afinal ela não era eu.


22.6.09

Oiço e canto, estou em arrumações

O homem que diz dou, não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz vou, não vai
Porque quando foi já não quis
homem que diz sooou, não éé
quem é mesmo, não sou
tôôôôôô, não táá
ninguém está quando quer
Coitaaaado do homem que cai
No canto de Ossanha, traidor
Coitaaaado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor

Vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, vai não vouuuuuu
Que eu não sou ninguém de irrrrrrrrrrrrrrrrr
Em conversa de esquecer a tristeza de um amorrrr-que-pa-ssouu
Não, eu só vou se for pra verrrrrrreeeeerrrr
Uma estrela aparecer
Na manhã de um nooooooovoaaamorrrr saraváaaa
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá
Que vai se arrepender
Pergunte ao seu Orixá
amor só é bom se doer
Pergunte ao seu Orixá
amorrrrr só é bom se doer

Vai, vai, vai, amar
Vai, vai, vai, vai sofrer
Vaaaiii, vaaaiii, vai, chorar
Vai, vai, vai, vai vai vai dizerrrrrrrrrrrr
Que eu não sou ninguém de irrrrrrrrrrrr
Em conversa de esquecer a tristeza de um amorrrrr-queeee-jáa-passouuu
Não, eu só vou se for pra verrrrrreeeerrrrrr
Uma estrela aparecer
Na manhã de um noooooovooooaaamor éévai vai vai vai vai sofrer vai vai vai chorarr vai vai vai vaiii
vai


Canto de Ossanha
, Elis Regina em Fascinação



Das mudanças
E se eu amava então dando-me, eu era enfim eu mesmo, porque não há senão o amor para restituir-nos a nós mesmos.*


* Camus, Albert. O Avesso e o Direito, em Entre o Sim e o Não.



A verdade
A mentira
é essencial para uma boa relação ponto



18.6.09

*
OK
No lugar da queda também se descansa.


*Bangkok, Março 2008



17.6.09

Acidentes
Em seis anos, mudei seis vezes de casa. O que faz uma média de uma mudança por ano. 
Se à minha frente corre um rio, gostava de encontrar, agora, um lago. Onde pudesse boiar durante uns tempos. E chamar, finalmente, de casa, a casa para aonde agora vou.



13.6.09

*
Ficava quieta a ouvir. Não sei se a água, o violino, o Spleen, que sempre pensei impossível ouvi-lo em francês.
E na mistura do trabalho, dos feriados que não senti excepto no trânsito, das festas e dos Santos, ainda fui parar ao circo. Num fim de tarde fantástico, torci o nariz ao Soleil até entrar. Lá dentro, parecia sentada, mas uma imagem chamou outra e lá fui eu, no meio do espectáculo, de volta àquelas tardes, fiins de tarde tão distantes. Estaria presa aos fios? Olha, olha, lá vou eu. Até baterem palmas, deixem-me voar também.


*praia a sul de
Ohm beach, Gokarna. Jan.2008



11.6.09

Querido diário,
hoje, tal como todos os outros dias, vou falar sobre o tamanho do meu ego.



10.6.09

Children show scars like medals. Lovers use them as secrets to reveal*
Tenho várias cicatrizes. Seis.
Do lado esquerdo: uma no pé perto do calcanhar, junto ao osso que não sei o nome. Uma no joelho, uma na anca e uma no cotovelo. São pequenas e antigas, tirando a do pé as outras são ténues, quase inexpressivas.
Do lado direito tenho duas, muito próximas, desenhadas por cima da sobracelha. Uma chega mesmo a interrompe-la, a sobracelha, ligeiramente. E estas duas são ainda mais antigas do que as outras. Foram feitas, curiosamente, na mesma casa-de-banho verde.
A primeira, estava pronta para sair, a caminho do aeroporto para esperar o meu pai. Já na porta de casa voltei atrás a correr, escorreguei e fui com metade da cara ao chão. Senti logo que estava a sangrar. Oito pontos, foi o resultado da queda em tiro certeiro contra uma cabeça de parafuso quase inexistente que servia para prender o bidé.
A segunda foi durante um carnaval. Era fim de tarde e acabara de tirar as lantejoulas para um banho rápido, que apetece naquele calor do Rio. A dançar ensaboada perdi o equilíbrio. Bati com o mesmo lado da cara na esquina do degrau forrado a azulejo, que separa a zona do duche. Valeu-me dez pontos e um desmaio da minha mãe, que pareceu-lhe de mais ver a filha a ser costurada com uma agulha de croché.
A sétima é recente.  Era noite, não vía nada,  por isso resolvi usar uma linha mágica, como aquelas canetas que só se lêm no escuro. Cozi-me.
Agora sempre que escurece apareces. Há pontos que ainda se abrem. Arranhaste-me com força de mais.


* Leonard Cohen, que dá brevemente um concerto em Lisboa.



5.6.09

Errata:
Nestes dias esquisitos, que nem a chuva trazem, gostava de ter a tua pinta para me fazer sorrir. Deverá lêr-se: Estou bem, muito obrigada.


O botão
Nestes dias esquisitos, que nem a chuva trazem, gostava de ter a tua pinta para me fazer sorrir.




4.6.09

*
Talvez se colar na parede e não for a única a ver, consiga arrasar com a importância que as coisas têm. Arrasar até se perder. -é um exercício-
Até ficarem gastas, tão gastas que já não se lê.
Altera-se os quadros. As previsões. As emoções.
Expõe-se à chuva, ao Sol, à chuva, ao Sol. Ao mar. Até ruir. À terra.
A força das palavras é diluída cada vez que alguém passa e lhe deita olho. Sente-se a violação.
O que antes foi grande porque criado por nós, agora vira-se o íman e perde-se o campo. Passa a ser de todos o que um dia reconhecí como meu. 
Pode ser que irreconhecível me passes -é um exercício-


* ou que tudo caia e fique ainda mais belo.  (Bangalore 2008)



Atrasar as ideias
Juro. Estou farta de ver bébés por todo o lado.



2.6.09

Precipitações
Eu nunca amei
Eu nunca amei ninguém
Eu nunca ninguém
Eu amei ninguém
Eu amei nunca
Nunca eu
Nunca amei
Nunca ninguém



O real, o irreal e o inteligível
FEDRO
Contemplai antes estes inumeráveis braços e pernas!... Umas poucas mulheres realizam mil coisas. Mil labaredas, mil pórticos efémeros, parreiras, colunas... As imagens fundem-se, dissipam-se... É um pequeno bosque de belos ramos agitados pela brisa da música! Ó Erixímico, existirá sonho que signifique mais tormentos e alterações perigosas dos nossos espíritos?
SÓCRATES
Mas, querido Fedro, isto é precisamente o contrário de um sonho.*


* Paul Valéry, a
Alma e a Dança, pág. 98 em Eupalino ou o Arquitecto. 



Não sei
Se eu fosse feliz não vinha para aqui escrever.




1.6.09

*
Do dia
O primeiro presente que te dei foi um livro para crianças, da Agustina. Mal sabia eu da(s) história(s) a metade.


*arredores de Hampi, Fev. 2008



Do desejo das partes sem te pedir permissão
"Afinal há nós... alguém notou
o imaginador de sensações e a mulher linda estavam alinhados, bem vestidos e, como Bernardo Soares assinala, diziam criancices..."



31.5.09

A memória é tudo
Faço uma espécie de terapia. No fundo estou deitada num divã e conforme falo em voz alta alguém escreve isto por mim.
Estou de costas para o computador. Sim, ele ouve e escreve.
Fala pouco, disse-me que a memória também se transmite através do sangue.




*
Habituei-me, cedo, aos aeroportos. Há qualquer coisa de reconfortante. De infância. Das vezes que ía no banco do carro da minha mãe, que saía sempre com tempo a mais, destemida no trânsito do Rio de Janeiro, não fôssemos chegar atrasadas. Lá dentro, depois de confirmar o número do voo ficávamos à espera. O tecto era alto, pontuado por uma colunata quase de perder de vista, infinita e robusta. A porta de espera estava recuada, debaixo de uma mezzanine que ocupava um terço desse espaço. Alí as colunas eram mais pequenas, menos gordas, e o tecto era cinzento, metálico como a porta automática que escondia um mundo de pessoas que faziam filas em diferentes postos onde paravam para carregar num botão. Botão que produzia duas cores: ou verde, e seguiam, ou encarnado e desviavam para abrir a mala em frente a um funcionário que revirava a roupa toda. Mal vía o meu pai esgueirava-me com destreza por entre a porta que só abria quando vinha alguém de dentro. Os polícias não diziam que não. Era uma emoção. Ainda hoje me emociono. No fundo queremos todos ter alguém à nossa espera.


*Bangkok, Março 2008



Última chamada II
Parei para beber café e estava uma fila maior do que o habitual. Não tinha tempo para esperas, fui directa ao outro bar que estava com luzes acessas e janelas semi-fechadas.
Quando cheguei, reparei. Baias pretas à volta das mesas, dois polícias de costas viradas para quem passa, um paramédico a arrumar uma maleta branca. E um sr., sozinho, vestido de preto com sapatos confortáveis e uma mala de mão em pele gasta, na área onde agora ninguém podia entrar. Estava sentado numa cadeira, com a cabeça caída em cima da mesa, braços escorridos no sentido da gravidade e pernas a perderem a tensão. 
Foram precisas duas horas e um biombo com estrutura metálica e tecido branco para que se fizesse a autópsia e o levassem dalí.
Nesse entretanto muita gente chegou e partiu, mesmo ao lado ví abraços fortes, e o bar reabriu uns cinco minutos depois.



28.5.09

Última chamada
Houve semanas em que me deitei às mesmas horas que ultimamente tenho me levantado.
Não sei se será por isso que me ponho a observar as reacções, as expressões, os abraços, daqueles que chegam e daqueles que os esperam. 
Ponho-me atenta para não me lembrar daquelas semanas passadas quase em claro, nem sempre produtivas, movidas por uma força que não se deve fazer muitas perguntas, que é a paixão.
Contrario a memória e concentro-me nos detalhes dos outros.

Hoje ví um senhor em cadeira de rodas, empurrado por um rapaz de colete verde. O sr. era alto, tinha cabelo claro já grisalho, puxado para trás, ondulado e bem penteado. Lembrava um músico dos anos oitenta. Sedutor de pose estudada, pensei.
Trazia um blazer com bom desenho, camisa, jeans e All Star.
Reparei mesmo antes de passarem a porta, o sr., que também estava de óculos escuros, levantou ligeiramente o pescoço, queria ouvir, já que não podia ver. Procurava quem o viesse buscar e o rapaz que o empurrava olhou para todas as caras enquanto perguntou se ele reconhecia uma voz.
Ninguém.
Scott! Scott? - chamou.
Tanta gente a sair, um grupo de turistas italianos, sorridentes com gargalhadas altas.
Scott? Scott! - perdi-o de vista. Mas estava por alí parado, perdido. Insistiu em chamar, conseguia ouvi-lo, mesmo no meio das tripulações que saíam em passo rápido e que muitas vezes só víam a cadeira de rodas quando já estavam em cima dela.
Scott! Are you there? Please, please, Scott?
Vinte minutos depois. Scott! please, please, Scott? Scott? Oh Scott!.. ninguém passava na rampa do lado esquerdo - Scott?? - a voz grossa, potente, a falhar - Ohh - gaguejou sem vibração. Guardou o choro a querer sair. Ficou sozinho, nem mesmo o rapaz de colete verde que acabou por o deixar.  E uma hora depois continuava no mesmo lugar. Por cima da sua cabeça conseguia-se ler: "Magnífico", que é uma bebida a publicitar-se.
Scott? - ainda tentou, mas era só um segurança a desimpedir a rampa e a deixá-lo parado uns metros mais à frente.



26.5.09

A versão patética
Fui picada por uma abelha morta.


A 2ª versão
Só é nosso o que perdemos, 
escreveu JL Borges naquela página que abriste ao acaso.


A 1ª versão
Embora achasses que queria cumprir sonhos, estava, na verdade, a andar com a realidade para a frente.



25.5.09

*
Do avesso, o revesso, o direito, o torto. 
Imperceptivelmente começo a viver na vida real.


*Niagara, Abril 2008






*
Precipitações ou o falso calculismo sentimental
Mesmo antes de ser feito, morreu.
Acho que cheguei a amá-lo. Imaginei com tanta vontade. Vinha um e depois ainda outro. Amava-os.
Belisco-me. Nunca houve nada para fotografar.


* Do telemóvel, Estoril, Abril 2009



22.5.09

´Non, ou a Vã Glória de Mandar´
Sou uma mulher da dúvida. Ainda não aprendi a gerir isso, nem sei se algum dia aprenderei. Por isso ocupo-me. O trabalho repele as dúvidas. Exausta-as. Embora nem sempre resulte bem. A ordem das coisas pode criar problema, e a memória selectiva atraiçoa-nos.
Nova investida.

Sou uma mulher com fé. Está na minha História. O Homem sem fé não pode viver, diz Manoel de Oliveira, que foram precisos cem anos para ser descoberto e falado e falado. E no filme, depois de perder a batalha, há um guerreiro que diz o sermão do padre António Vieira: "Terrível palavra é o ´non`, não tem direito nem avesso, por qualquer lado que a tomeis, é sempre ´non`."
Sem esperança, é impossível continuar.




Da precipitação
Pois, afinal esteve um grande dia de sol.


19.5.09

Precipitações
Acusaram-me de ser precipitada. De falar antes do tempo, de não dar ar às palavras.
Tenho uma ligação muito curta: o coração e a boca. A boca descontrolada. A mente acelerada. Como se comesse o presente com as mãos, lambendo os dedos com a pressa que aumenta e não deixa soltar o ar. Enquanto devoro já salivo, à espera do próximo prato que nem certeza tenho, de saber o que é. E é tudo tão descontrolado que às vezes pergunto se essa não será a minha velocidade, de sempre, em alerta, ansiosa, desejosa de te falar ao ouvido. De fazer-te chegar a boca e o coração. De devorar-te aos bocadinhos. Para depois ficar em ti.
Precipitada? acuso-te, que também te precipitaste quando te aproximaste de mim. Escolheste-me antes de eu te escolher a ti. 


10.5.09

Da precipitação
Vai chover no meu dia d´anos.


8.5.09

Teste a encarnado um dois
Ainda não foi desta que consegui pôr os links a funcionar. 


7.5.09

Ma ligne de chance, Ma ligne de chance*
uma sucessão de malsucedidos. que escolheram o romance em lugar da história.
ou cigana, lê lá isso melhor, outra vez.

*(cantado soa melhor)



6.5.09

*
Olhando para trás, já lá vão quase dezanove anos que vivi durante um ano num hotel. Embora distante de casa, num continente que não o meu, lembro-me de tempos felizes. Brincava às descobertas, conseguia ver mais do que as coisas realmente eram. Inventava histórias sobre princesas, inventava amigas, e as bonecas transformavam-se todos os dias. 
Não apanhei nenhuma doença, embora os meninos da feira do Roque Santeiro levassem as mãos à boca, como quem prova, depois de as passar por mim. Chorei, pelo descuido de dois minutos da minha mãe.
Não apanhei nenhuma doença, mas apanhei este assustador hábito de estar sempre a imaginar 
para além da realidade.

*Mumbai, Fev. 2008



Quando ele diz que a felicidade existe só na esperança, não está a lamentar-se; está a descobrir o lugar do riso*
Hoje estou, aparentemente, mais serena. Tem dias. Tenho dias. Ontem, nervo miudinho, ansiosa por escolher uma frase, parágrafos completos me desafiavam, espécie de voz-off dentro de mim. 

Como se tivesse trancado o coração, depois de falhar. E partido num comboio. Falhado o coração e, a memória, em modo shuffle, descordenou-se, coitada, na linha do absurdo, perdida.
Ou uma vida atribulada, passional e impulsiva. Tipicamente romântica. É a minha, que às vezes julgo-me amarga.

Mas segui o conselho de alguém, que já não me lembro quem, que me disse que quando escrevemos as palavras já não nos pertencem. Partem-se, e o trovão passa a ser rumor.
E eu, que sempre gostei de rir.

*Agustina, escreve sobre Camilo Castelo Branco.



4.5.09

A storm is blowing from Paradise
Está tudo na mesma. Vejo-te três mesas à minha frente. Na mesma linha e direcção. 
Gostava de ficar, de restaurar o que foi destruído, de despertar os mortos. 
Divido-me em duas. Vou alí espelhar-me em ti. Tenho decorado as falas, não me ouves aí?  que agora já sei que estávamos em palco, desculpa, não tinhamos plateia, julguei-me real.

" É assim que se retrata o anjo da história. Seu rosto está virado para o passado. Onde percebemos um encadeamento de factos, ele vê uma só catástrofe, que acumula ruínas e as atira a seus pés. O anjo gostaria de ficar (...) Mas uma tormenta está soprando do Paraíso; ela fustiga suas asas com tamanha violência que o anjo não consegue mais fechá-las. Essa tormenta impele-o irresistivelmente em direcção ao futuro, para o qual suas costas estão voltadas, enquanto o monte de destroços diante dele cresce até ao céu. Essa tormenta é o que chamamos de progresso."   Walter Benjamin, a propósito de uma pintura de Klee chamada Angelus Novus.

Tão real, vejo-te três mesas à minha frente. Mesmo alí.


29.4.09

 

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